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sexta-feira, 10 de setembro de 2010
cinza
antes que se completasse o-um ano de existência, a última redação nasce. pra falar de justificativa, não me dobram mais os mesmos termos dessa una persona. e nem as ideias. questões. pontos finais. pra falar de porquês, eu também não os conheço. ou melhor: conheço, mas não quero falar sobre eles. pra falar de expectativa, falo já do pós-scriptum. a última tentativa. nem minha, só. nem só de verónica. se dessa última tacada não restar vida além dos nove meses, prova-se a teoria de deus de que quanto mais infeliz e egoísta o homem, menos anos vive. se sóbria-viver um tiquinho a mais, também não será um letreiro-piscante de falta de fé ou coisa parecida. assim ou assado, talvez seja das mais naturais mis-misantropias. sem planos, acredite! a não ser o de não morrer, ainda.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
a viagem
ao estado solitário,
um brinde seco
de quem sente que a viagem nos deixa sós.
tudo está tão cheio de amor!
quando meus olhos tremem fechados e meus pêlos arrepiam
é tanto céu quanto terra.
é a viagem que nos deixa sós.
a arte que respira e as vidas cruzadas
e os carpe diem-s regentes
e a inspiração
confortam a viagem que nos deixou sós.
não cabe gritar ao desapego que apareça
ainda que apareça
não carece gritar.
a viagem nos traz sós atrás do que não cabe mais.
canto o transporte imenso dos sentidos
na maior correspondência de almas:
a do sol e da lua.
eu te amo.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Sol
era uma vez uma nota. seu nome era Sol, filha de Dó e Fá. quando criança, Sol conhecera muitas notas parecidas com ela, mas nenhuma era igual. Sol tinha um timbre único. por alguns dias, soava-feliz, em outros, era a mais triste de todas as notas. Sol adorava voar pelos parques da cidade, onde havia muitos pássaros que podiam cantá-la com alegria.
num belo dia, Sol meditava à beira de um lago, à sombra de uma árvore lindíssima, quando um bem-te-vi se aproximou, trazendo o mais belo som que Sol havia ouvido até então. Sol chorou de alegria:
- céus! que som belíssimo é esse?! - perguntou ao nada.
Sol chorava e ria sem parar:
- céus...!
- soa comigo, Sol, vamos! soa, Sol! és a mais bela de todas as notas, soa comigo! - disse a nota, sorrindo.
então as duas soaram juntas e voaram juntas.
soaram juntas e voaram juntas por muito tempo, permitindo ao mundo ouvir o som mais encantador de todos os tempos.
um dia, notaram que deveriam se separar. era preciso ouvir o silêncio. e talvez outras notas, combinadas de outra maneira. deveriam entender que não seria possível soar para sempre. antes de se separar de sua nota-gêmea, Sol, que chorava muito, perguntou:
- será que algum dia poderemos soar juntas novamente?
- voa em outros ares, Sol. há tanto pra soar no mundo. há tanto som que precisa de ti...! não te prende a mim.
- jamais conseguirei soar tão bem como com você.
- eu te amo, Sol.
- eu também te amo muito!
- adeus!
- adeus...
então voaram para lados opostos. já de longe, Sol perguntou:
- me diz seu nome?
- eu te amo, Sol! eu te amo! ... meu nome é Sol.
num belo dia, Sol meditava à beira de um lago, à sombra de uma árvore lindíssima, quando um bem-te-vi se aproximou, trazendo o mais belo som que Sol havia ouvido até então. Sol chorou de alegria:
- céus! que som belíssimo é esse?! - perguntou ao nada.
Sol chorava e ria sem parar:
- céus...!
- soa comigo, Sol, vamos! soa, Sol! és a mais bela de todas as notas, soa comigo! - disse a nota, sorrindo.
então as duas soaram juntas e voaram juntas.
soaram juntas e voaram juntas por muito tempo, permitindo ao mundo ouvir o som mais encantador de todos os tempos.
um dia, notaram que deveriam se separar. era preciso ouvir o silêncio. e talvez outras notas, combinadas de outra maneira. deveriam entender que não seria possível soar para sempre. antes de se separar de sua nota-gêmea, Sol, que chorava muito, perguntou:
- será que algum dia poderemos soar juntas novamente?
- voa em outros ares, Sol. há tanto pra soar no mundo. há tanto som que precisa de ti...! não te prende a mim.
- jamais conseguirei soar tão bem como com você.
- eu te amo, Sol.
- eu também te amo muito!
- adeus!
- adeus...
então voaram para lados opostos. já de longe, Sol perguntou:
- me diz seu nome?
- eu te amo, Sol! eu te amo! ... meu nome é Sol.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
domingo, 15 de agosto de 2010
she's so heavy
considere os planos. ah, vá, considere os sonhos! considere toda a antecedência. considere o esforço. considere o talento. considere a boa casa. considere sua limpeza. considere as contas pagas. considere os bons cedês. considere o bom filme. considere o corpo. considere o jantar romântico. considere o sexo à luz da lua. considere o bom sono. considere o bom chefe. considere a família. considere os amigos leais. considere os livros. considere as viagens. considere os bons cursos. considere os dias bonitos. considere os resultados. considere o crescimento. considere-amadurecer. considere. considere.considereconsidereconsidere
!
só há uma coisa mais pesada do que não ver mais sentido: auto-piedade.
!
só há uma coisa mais pesada do que não ver mais sentido: auto-piedade.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
coisa de filosofia sem preço
outro dia a tentativa-de-discussão do professor foi sobre a coisa. o que é uma coisa? e por que você a reconhece como coisa? essas coisas... um monólogo cheio de perguntas só não mais intrigantes do que suas respostas. foi suado. isso, de saber uns porquês que parecem meio à toa. foi pura filosofia. mas a filosofia de fato, como nasceu, como explicou o outro professor no outro dia: filosofia como pensamento direcionado. que história é essa de achar de filosofar é ficar pensando na vida, assim, sem muita razão senão pensar mesmo? pensar na vida, a gente pensa sempre. no ônibus, na fila-de-alguma-coisa, no mercado. mas é pensamento sem linha do tempo. evapora quando a caixa chama o próximo e fica por isso mesmo. filosofia é justamente sentar e pensar mesmo. com todos os pré-requisitos e argumentos possíveis, em todos os pontos de vista, todos os questionamentos e nem todas as respostas. clichezando, assim, em tom leigo maior, não parece grande coisa, mas descobri que é, sim. falando da coisa, descobri uma ideia que leva a todas elas. o esqueminha em caneta azul por cima dos pentagramas da lousa não vai sair nunca mais da minha cabeça.
do meu lado esquerdo (que ironia!) está o padrão (pattern), que diz respeito a um conceito. do meu lado direito, a matéria (mater), que diz respeito a um objeto.
pois é.
papai e mamãe se unem e têm o filho mais controverso da história:
a coisa.
do meu lado esquerdo (que ironia!) está o padrão (pattern), que diz respeito a um conceito. do meu lado direito, a matéria (mater), que diz respeito a um objeto.
pois é.
papai e mamãe se unem e têm o filho mais controverso da história:
a coisa.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
será que sara?
foi dito no rodapé que todas as mulheres deveriam se dirigir ao palácio do governo sem sapatos ou meias ou luvas ou gorros. apenas um avental florido deveria cobri-las. os redatores da concorrência não hesitaram em ignorar, ou simplesmente desaperceber inocentemente, como crianças em peça de teatro que se surpreendem de fato com os elementos-surpresa que entram por trás da plateia, a ironia suicida que ali nascia e ali morria, ao engarrafar as letras DEMO em cracia, seguidas pelo mais polêmico ponto de interrogação dos últimos anos.
o encontro se daria às duas da tarde do mesmo domingo em que se lia a bomba. todos deveriam almoçar suas carnes e arrozes e feijões requentados ansiosamente. e ir.
os aventais floridos sumiram das lojas. os orgulhos dos maridos enfiaram a cabeça no buraco do ralo do banheirinho. as bundas de todas as mulheres de todos os lugares reuniram-se, nuas, no mesmo lugar. os rostos abatidos envermelharam-se todos, sérios, lacrimejados. o governo, assustado, após alguns minutos de ruídos desesperados em telefone-sem-fio, mandou todos para casa imediatamente. o jornal, em poucas horas, calou-se para sempre.
finalmente, a primeira notícia do dia, no jornal das seis da manhã, na voz feminina da mulher bem-vestida de cabelos curtos:
"a semana que se segue será a mais agitada de todas: faltam apenas 9 dias para o natal!"
o encontro se daria às duas da tarde do mesmo domingo em que se lia a bomba. todos deveriam almoçar suas carnes e arrozes e feijões requentados ansiosamente. e ir.
os aventais floridos sumiram das lojas. os orgulhos dos maridos enfiaram a cabeça no buraco do ralo do banheirinho. as bundas de todas as mulheres de todos os lugares reuniram-se, nuas, no mesmo lugar. os rostos abatidos envermelharam-se todos, sérios, lacrimejados. o governo, assustado, após alguns minutos de ruídos desesperados em telefone-sem-fio, mandou todos para casa imediatamente. o jornal, em poucas horas, calou-se para sempre.
finalmente, a primeira notícia do dia, no jornal das seis da manhã, na voz feminina da mulher bem-vestida de cabelos curtos:
"a semana que se segue será a mais agitada de todas: faltam apenas 9 dias para o natal!"
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
maturidade
é tendência dos que já escreveram bíblias e sinfonias maiores e menores
cordas, sopros, percussão até não caber mais nada.
dos que improvisaram sem pausa
suas escaletas sem cor.
:
menos.
cordas, sopros, percussão até não caber mais nada.
dos que improvisaram sem pausa
suas escaletas sem cor.
:
menos.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
baião de dois
quando te pedem pra tocar qualquer-coisa ao piano e você não sabe tocar nem qualquer-coisa, o piano sai das mãos e vai pras costas.
bate uma coisa dentro, doida.
você fica longe de si, fitando a olhos duros aquelas mãos mais duras ainda.
aí você expulsa a lágrima intrusa com uma pausa bruta. deixe de manha!
sem ar. sem nada.
não mais.
as coisas mudaram por aqui.
bate uma coisa dentro, doida.
você fica longe de si, fitando a olhos duros aquelas mãos mais duras ainda.
aí você expulsa a lágrima intrusa com uma pausa bruta. deixe de manha!
sem ar. sem nada.
não mais.
as coisas mudaram por aqui.
terça-feira, 13 de julho de 2010
en-cont(r)o
um longo dia. longas cervejas. boas doses de uma cachaça bem ruim - a única que tinham por lá. minha cabeça rotacionava infinitamente. a noite já era quase-dia e meus pés congelavam. as unhas estavam roxas e meu estômago queria ir pra casa.
- não! eu não acredito em mais nada!
...
- nem em ninguém!
...
- vou pra casa me jogar da varanda! minha cabeça vai espatifar no chão que nem bosta!
- talvez seja melhor você se acalmar. - disse o homem.
- eu vou pra casa me jogar da varandaaaaa! - berrei, vomitando tudo o que havia e que não havia no meu estômago.
o homem limpou tudo do jeito que dava. colocou um pano úmido na minha testa, me cobriu com um cobertor vermelho e me fez tomar um copo d'água.
- deus? é você? - perguntei, apalpando seu rosto negro.
- está melhor, não está?
- deus! é você!
- agora é melhor que vá pra casa dormir.
- sempre soube que você viria. sempre soube que reconheceria seu rosto. minha avó sempre disse que é nas horas mais aflitivas que deus aparece pra te ajudar... que bom que ela tem razão!
- é hora de discernir.
- é hora de dormir, deus, tem toda a razão.
- boa noite.
- boa noite!
meus pés estavam quentes. minha cama estava muito confortável.
estava tudo no seu devido lugar.
- não! eu não acredito em mais nada!
...
- nem em ninguém!
...
- vou pra casa me jogar da varanda! minha cabeça vai espatifar no chão que nem bosta!
- talvez seja melhor você se acalmar. - disse o homem.
- eu vou pra casa me jogar da varandaaaaa! - berrei, vomitando tudo o que havia e que não havia no meu estômago.
o homem limpou tudo do jeito que dava. colocou um pano úmido na minha testa, me cobriu com um cobertor vermelho e me fez tomar um copo d'água.
- deus? é você? - perguntei, apalpando seu rosto negro.
- está melhor, não está?
- deus! é você!
- agora é melhor que vá pra casa dormir.
- sempre soube que você viria. sempre soube que reconheceria seu rosto. minha avó sempre disse que é nas horas mais aflitivas que deus aparece pra te ajudar... que bom que ela tem razão!
- é hora de discernir.
- é hora de dormir, deus, tem toda a razão.
- boa noite.
- boa noite!
meus pés estavam quentes. minha cama estava muito confortável.
estava tudo no seu devido lugar.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
um passo.
enquanto minhas mãos tateiam superfícies-alma
abro os olhos dentro da venda negra
e enxergo arco-íris.
das drogas pesadas, o que penso será a mais intensa delas
e o que sinto, a mais vi-(s)-ceral das vi(-)cerais.
quando vomitar de tanto pensar, presentearei meu corpo com sentimentos sinceros.
é assim que vou seguir.
mas que fique bem claro: minha paciência não é ciência exata.
é arte.
abro os olhos dentro da venda negra
e enxergo arco-íris.
das drogas pesadas, o que penso será a mais intensa delas
e o que sinto, a mais vi-(s)-ceral das vi(-)cerais.
quando vomitar de tanto pensar, presentearei meu corpo com sentimentos sinceros.
é assim que vou seguir.
mas que fique bem claro: minha paciência não é ciência exata.
é arte.
terça-feira, 6 de julho de 2010
non-sense
.
um silêncio que pensa ironizar
dói.
vinga.
mata.
bem dramático, assim.
um silêncio que sempre existiu. o silêncio das tragadas e dos olhares. e dos não-olhares.
um silêncio disfarçado nas conversas. embebido em cervejas. camuflado em conceitos. colorido pelas piadas. ofuscado pelo meu próprio, tão nítido.
um silêncio covarde.
.
e já que a nova-ordem é surpreender assim, desenganando-nos, reforço aos berros, socando os braços em cima da mesa, suando o corpo todo, com o rosto vermelho-sangue e as veias da minha testa saltando sob a pele:
- !
.
não é ironia.
é uma questão de escolha.
um silêncio que pensa ironizar
dói.
vinga.
mata.
bem dramático, assim.
um silêncio que sempre existiu. o silêncio das tragadas e dos olhares. e dos não-olhares.
um silêncio disfarçado nas conversas. embebido em cervejas. camuflado em conceitos. colorido pelas piadas. ofuscado pelo meu próprio, tão nítido.
um silêncio covarde.
.
e já que a nova-ordem é surpreender assim, desenganando-nos, reforço aos berros, socando os braços em cima da mesa, suando o corpo todo, com o rosto vermelho-sangue e as veias da minha testa saltando sob a pele:
- !
.
não é ironia.
é uma questão de escolha.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
eu desejo
aos que filosofam, um sorriso sincero
aos que suspiram, minha empatia
aos que enraivecem, meu pesar
aos que remoem, um coador
aos que guardam, uma granada
aos que ansiam, boa música
aos que estudam, sol
aos que morrem, um espelho convexo
aos que jogam, amor
aos que disfarçam, luz
aos que atuam, câmera
(à câmera, uma lata de lixo)
aos que observam, ação
aos que choram, pulmões
aos que desistem, calor
aos aspirantes a, um passo
aos eternos, memórias
aos presentes, eternidade.
e a qualquer ser que se assemelhe a mim em sangue e lágrimas,
detalhes.
aos que suspiram, minha empatia
aos que enraivecem, meu pesar
aos que remoem, um coador
aos que guardam, uma granada
aos que ansiam, boa música
aos que estudam, sol
aos que morrem, um espelho convexo
aos que jogam, amor
aos que disfarçam, luz
aos que atuam, câmera
(à câmera, uma lata de lixo)
aos que observam, ação
aos que choram, pulmões
aos que desistem, calor
aos aspirantes a, um passo
aos eternos, memórias
aos presentes, eternidade.
e a qualquer ser que se assemelhe a mim em sangue e lágrimas,
detalhes.
domingo, 27 de junho de 2010
minha cara,
pergunto a você, que do sofrimento suga até a alma, que opção resta a quem não quer mais o que faça lembrar e lacrimejar e disfarçar e fechar a porta e então chorar em silêncio? se é que esse respiro existe, que controle tenho sobre ele? e se há poder, em que momento se aplica? que liberdade permeia a vontade? desconheço. por favor, me diga se existe mesmo ou não, porque o meu sofrimento já é quase nome próprio. já não suporto meus suspiros e escritos. tudo soa repetitivo e vitimal. eu não quero mais, minha cara. pode me ensinar o arbítrio-e-ponto? ainda que lhe seja também anônimo...
conscientemente,
pergunto a você, que do sofrimento suga até a alma, que opção resta a quem não quer mais o que faça lembrar e lacrimejar e disfarçar e fechar a porta e então chorar em silêncio? se é que esse respiro existe, que controle tenho sobre ele? e se há poder, em que momento se aplica? que liberdade permeia a vontade? desconheço. por favor, me diga se existe mesmo ou não, porque o meu sofrimento já é quase nome próprio. já não suporto meus suspiros e escritos. tudo soa repetitivo e vitimal. eu não quero mais, minha cara. pode me ensinar o arbítrio-e-ponto? ainda que lhe seja também anônimo...
conscientemente,
quinta-feira, 17 de junho de 2010
a seleção natural
sinto
o presente.
será que isso é bom?
a fluência...
uma passividade sem fim! ("é claro...", ela pensaria)
será que isso é bom?
será que isso importa?
será que é tudo recalque?
será que eu me amo?
será que eu a amo?
será que eu te amo?
é futuro demais pra mim.
prefiro sim.
o presente.
será que isso é bom?
a fluência...
uma passividade sem fim! ("é claro...", ela pensaria)
será que isso é bom?
será que isso importa?
será que é tudo recalque?
será que eu me amo?
será que eu a amo?
será que eu te amo?
é futuro demais pra mim.
prefiro sim.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
uma cegonha e uma pergunta
sabe aquelas cegonhas? isso. as cegonhas que só conhecemos por cegonhas por suas eternas histórias maternas.
sonhei com um bando delas. eram muitas. milhares. tampavam todo o céu com suas penas brancas e seus panos levados nos bicos com alguma coisa dentro.
elas são surpreendentemente silenciosas, sabia? não berram porque estão carregando alguma coisa.
tentei ver o que era. cada cegonha parecia levar algo diferente. estavam muito concentradas. então uma delas saiu do bando e veio em minha direção, voando muito rápido. fiquei assustada. ela pousou com muita calma ao meu lado. deixou seu pano branco com coisa dentro ao seu lado e disse, apontando pra ele:
- sabe o que carrego aqui?
- não. - respondi, tentando não transparecer tanta curiosidade.
- não sabe mesmo?! - indagou irônica, aproximando seu bico baforento do meu rosto.
- não. o que é?
- é a sua alma, minha jovem!
- como é?
- é isso mesmo.
as outras cegonhas ainda voavam acima de nós. eram milhares.
- não entendo.
- o que te contaram sobre nós?
- mentiras.
- como sabe?
- sei que são mentiras. e sei que vocês não existem. e que estou sonhando. e que se você não me responder logo eu posso te matar.
- ora, ora... onde aprendeu a falar assim? parece que não lhe ensinaram a vida como deviam.
- o que você sabe sobre mim?
- sabe o que carrego aqui? - perguntou novamente, apontando novamente para o pano branco ao seu lado.
- sei. a minha alma.
- ora, ora... vocês continuam tolos! - disse, gargalhando, e saiu voando de novo.
deixou o pano branco onde estava.
- ei!
...
que raio de alma é essa?
abri o pano.
que raio de alma é essa?!
sonhei com um bando delas. eram muitas. milhares. tampavam todo o céu com suas penas brancas e seus panos levados nos bicos com alguma coisa dentro.
elas são surpreendentemente silenciosas, sabia? não berram porque estão carregando alguma coisa.
tentei ver o que era. cada cegonha parecia levar algo diferente. estavam muito concentradas. então uma delas saiu do bando e veio em minha direção, voando muito rápido. fiquei assustada. ela pousou com muita calma ao meu lado. deixou seu pano branco com coisa dentro ao seu lado e disse, apontando pra ele:
- sabe o que carrego aqui?
- não. - respondi, tentando não transparecer tanta curiosidade.
- não sabe mesmo?! - indagou irônica, aproximando seu bico baforento do meu rosto.
- não. o que é?
- é a sua alma, minha jovem!
- como é?
- é isso mesmo.
as outras cegonhas ainda voavam acima de nós. eram milhares.
- não entendo.
- o que te contaram sobre nós?
- mentiras.
- como sabe?
- sei que são mentiras. e sei que vocês não existem. e que estou sonhando. e que se você não me responder logo eu posso te matar.
- ora, ora... onde aprendeu a falar assim? parece que não lhe ensinaram a vida como deviam.
- o que você sabe sobre mim?
- sabe o que carrego aqui? - perguntou novamente, apontando novamente para o pano branco ao seu lado.
- sei. a minha alma.
- ora, ora... vocês continuam tolos! - disse, gargalhando, e saiu voando de novo.
deixou o pano branco onde estava.
- ei!
...
que raio de alma é essa?
abri o pano.
que raio de alma é essa?!
terça-feira, 8 de junho de 2010
a prova de piano
eu toquei com todo o afinco e todo o sentimento que me acompanhou desde as pré-parações suadas e com quase toda a segurança que o tal suor supostamente nos dá nessas horas. (daria pra fazer disso tudo uma coisa menor e tornar-me, assim, mais relapsa e ainda mais insegura - como já aconteceu -, mas não foi o caso.)
como todos que se metem com música acabam descobrindo... o que você faz nunca soa bem o suficiente. aliás, quase sempre está bem longe de ser o melhor.
(bom, talvez seja o caso de nos mantermos assim: estudiosos-ansiosos-obsessivos. música não combina com inércia mesmo...!)
depois do conc(s)erto, ouvi conselhos, opiniões, críticas, elogios, filosofias à parte, indagações e interpretações. tudo tão sincero... assim, comovente. uma visão raríssima. valiosíssima. um superlativo completo. ei-lo:
"
gostei muito do que ouvi. mas. alguns pontos são importantes de se comentar...
às vezes sua interpretação, no que se refere ao tempo, especialmente, não fica clara para o ouvinte. uma coisa é quando a gente não segue o tempo à risca. é lindo! faz parte do que você sente com a melodia. outra coisa é quando o rubato rompe a fluência do som. é importante sentir e saber interpretar até o limite desta fluência, certo? outro ponto importante...
as suas ideias, algumas vezes, dão a entender um caminho determinado que deve ser concluído. e quando mais se espera essa conclusão, outra ideia vem por cima, surpreendendo o ouvinte de maneira muito confusa e até mesmo assustadora. entenda... é como num diálogo. imagine tudo o que se toca como se fossem palavras. é preciso concluir uma ideia para começar a falar de outra, senão fica tudo sem pé nem cabeça. o pé que termina uma coisa não é o mesmo pé que começa outra, entende? às vezes sinto que você mal terminou o que fazia ali e já chegou aqui assim, pulando, com os dois pés batendo forte no chão... é preciso caminhar. quanto ao improviso...
eu me perdi. não entendi o seu discurso. senti sílabas soltas que não deram sentido ao texto, sabe? acho que o improviso, para eruditos ou populares, leigos ou não, deve, sempre, surpreender e conduzir o ouvinte numa corrente ininterrupta e agradável de ideias, e não deixá-lo perplexo. no mais...
você tem em mãos uma técnica e um entendimento do instrumento que te permitem crescer ainda mais. aproveite o que tem em mãos com maior consciência. cada nota tem uma intenção. de onde ela vem, onde ela está e pra onde ela quer ir. e assim é com cada pausa. música é feita de som e de silêncio. música é arte feita no tempo. ele é a alma da música. é nele que ela flui, que ela é. a plenitude se alcança no som e no silêncio no lugar certo, na fluência do tempo.
"
é.
música não combina com inércia mesmo...!
como todos que se metem com música acabam descobrindo... o que você faz nunca soa bem o suficiente. aliás, quase sempre está bem longe de ser o melhor.
(bom, talvez seja o caso de nos mantermos assim: estudiosos-ansiosos-obsessivos. música não combina com inércia mesmo...!)
depois do conc(s)erto, ouvi conselhos, opiniões, críticas, elogios, filosofias à parte, indagações e interpretações. tudo tão sincero... assim, comovente. uma visão raríssima. valiosíssima. um superlativo completo. ei-lo:
"
gostei muito do que ouvi. mas. alguns pontos são importantes de se comentar...
às vezes sua interpretação, no que se refere ao tempo, especialmente, não fica clara para o ouvinte. uma coisa é quando a gente não segue o tempo à risca. é lindo! faz parte do que você sente com a melodia. outra coisa é quando o rubato rompe a fluência do som. é importante sentir e saber interpretar até o limite desta fluência, certo? outro ponto importante...
as suas ideias, algumas vezes, dão a entender um caminho determinado que deve ser concluído. e quando mais se espera essa conclusão, outra ideia vem por cima, surpreendendo o ouvinte de maneira muito confusa e até mesmo assustadora. entenda... é como num diálogo. imagine tudo o que se toca como se fossem palavras. é preciso concluir uma ideia para começar a falar de outra, senão fica tudo sem pé nem cabeça. o pé que termina uma coisa não é o mesmo pé que começa outra, entende? às vezes sinto que você mal terminou o que fazia ali e já chegou aqui assim, pulando, com os dois pés batendo forte no chão... é preciso caminhar. quanto ao improviso...
eu me perdi. não entendi o seu discurso. senti sílabas soltas que não deram sentido ao texto, sabe? acho que o improviso, para eruditos ou populares, leigos ou não, deve, sempre, surpreender e conduzir o ouvinte numa corrente ininterrupta e agradável de ideias, e não deixá-lo perplexo. no mais...
você tem em mãos uma técnica e um entendimento do instrumento que te permitem crescer ainda mais. aproveite o que tem em mãos com maior consciência. cada nota tem uma intenção. de onde ela vem, onde ela está e pra onde ela quer ir. e assim é com cada pausa. música é feita de som e de silêncio. música é arte feita no tempo. ele é a alma da música. é nele que ela flui, que ela é. a plenitude se alcança no som e no silêncio no lugar certo, na fluência do tempo.
"
é.
música não combina com inércia mesmo...!
segunda-feira, 7 de junho de 2010
vagarosa
não sei se posso
se tenho moral ou direito
idade
motivo
se está, enfim, nas minhas possibilidades, esse poder
nem sei quem é que vai me apontar a tal lei em alguma cartilha de não-sei-o-quê
o que sei é desse pavio curto aqui
da resposta grosseira
do silêncio feroz
- escudo de aço -
da bolha de 5 metros de diâmetro que me envolve em potência máxima!
é a intolerância.
ela me visita de vez em quando e,
enquanto ela bufa, eu sirvo um chá bem quente. varagosa-
mente.
se tenho moral ou direito
idade
motivo
se está, enfim, nas minhas possibilidades, esse poder
nem sei quem é que vai me apontar a tal lei em alguma cartilha de não-sei-o-quê
o que sei é desse pavio curto aqui
da resposta grosseira
do silêncio feroz
- escudo de aço -
da bolha de 5 metros de diâmetro que me envolve em potência máxima!
é a intolerância.
ela me visita de vez em quando e,
enquanto ela bufa, eu sirvo um chá bem quente. varagosa-
mente.
terça-feira, 1 de junho de 2010
sonho colorido de um jovem poeta
uma saudade imensa
um vinho-bom-vinho
noite fria.
cenário bem-acabado, este. que se encenem as fantasias! - foi o que pensei.
e o que me surpreendeu foi não lembrar de fala alguma
e não ouvir nenhuma outra
qualquer coisa tão conhecida e pálida.
e aí que foi uma noite pintada à óleo
telas imensas, as paredes
e os pêlos macios dos pincéis dançavam e dançavam num pulso só
e o que era pra ser fala virou corpo
ciranda em vestido amarelo-canário
compassos nus, assim
e os pulmões em seus delírios gozosos
e tão sóbrios...!
foi uma noite de arte.
um vinho-bom-vinho
noite fria.
cenário bem-acabado, este. que se encenem as fantasias! - foi o que pensei.
e o que me surpreendeu foi não lembrar de fala alguma
e não ouvir nenhuma outra
qualquer coisa tão conhecida e pálida.
e aí que foi uma noite pintada à óleo
telas imensas, as paredes
e os pêlos macios dos pincéis dançavam e dançavam num pulso só
e o que era pra ser fala virou corpo
ciranda em vestido amarelo-canário
compassos nus, assim
e os pulmões em seus delírios gozosos
e tão sóbrios...!
foi uma noite de arte.
sábado, 29 de maio de 2010
cores-imagens (epílogo)
foi preciso. eu quis. eu procurei e arranjei tudo porque eu ansiava por isso. por ver você e saber e sentir como você está e como está a sua vida. tremi desde o antes-do-começo até a caminhada voluntária da uma e pouco da manhã. pouco consegui falar, como já esperava. e pensei muito. muito, muito. e fui absorvendo a verdade das coisas assim... poro por poro. cada silêncio, uma agulhada no meio da testa. outra no peito. muitas no corpo todo. voltei pra casa com uma agulha em cada dor.
foi preciso. eu quis. eu procurei e arranjei tudo porque eu ansiava pela verdade-da-verdade (não a minha verdade-nada-confiável).
foi preciso.
caminhando e cantando...
foi preciso. eu quis. eu procurei e arranjei tudo porque eu ansiava pela verdade-da-verdade (não a minha verdade-nada-confiável).
foi preciso.
caminhando e cantando...
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